segunda-feira, 30 de junho de 2014

Eu vou crer no incompreensível

"Minha força esvai
Me sinto só
Tentando ver saída à frente
Só existe um caminho

Cansado estou de lutar
E eu conheço a minha dor
Só existe um caminho

Eu vou olhar para o alto
E acreditar nos teus cuidados
Vou me firmar sobre a rocha
A tempestade passará e eu ficarei em pé

Confiarei minha vida a Ti
Descobrirei o que tu tens para mim
Tua palavra não falhará
Se eu passar pelas águas
Elas não me submergirão
Só existe um caminho

Se eu olhar apenas no visível
Eu ficarei abalado

Mas eu vou crer no incompreensível
Pois o meu Deus está comigo

Comigo estás
Tu não me deixarás jamais"


(Heloísa Rosa)







Uma amiga me enviou hoje esta música. Achei muito forte! Parecia até que quem compôs estava sentindo a mesma coisa que eu ou algo parecido. Uma parte em especial me chamou bastante atenção: "Eu ficarei abalado/Mas eu vou crer no incompreensível". Sim, existem situações nas nossas vidas em que, inevitavelmente, ficamos abalados. Somos humanos, falhos e sensíveis e as circunstâncias naturalmente nos abalam. Cabe a nós decidirmos continuar andando ou ceder a tentação de nos entregar. Para continuarmos caminhando é imprescindível se firmar sobre a Rocha, Jesus. 

Mas a parte que mais mexeu comigo foi a que diz:"Eu vou crer no incompreensível". Vou ser bastante sincera com vocês. Racionalmente pensando, nada, absolutamente nada que eu possa imaginar que Deus faça na minha vida e através da minha vida seja mais precioso para mim do que a vida de Catarina. Falo isso tranquilamente porque Deus conhece o meu coração e eu poderia esconder isso de vocês, mas jamais dEle. Todas as vezes que parei para pensar no que Deus queria com tudo isso e o que de maravilhoso Ele pudesse fazer, não alcancei nada que superasse ou se igualasse a alegria e a plenitude de ter a minha filha comigo. 

Fico muito feliz quando leio cada comentário, dizendo o quanto cada um de vocês tem sido tocado e transformado através da minha história, dos meus textos e da minha fé. Porém, mais uma vez, serei sincera com vocês. Isso para mim é bom, mas é muito pouco. Transformar a sua vida é muito "pouco" diante da minha dor de perder a minha filha. Penso frequentemente também sobre outros filhos e, ainda que Deus me conceda uma nova benção, nenhum deles vai preencher o lugar de Catarina ou apagar a cicatriz que já foi feita no meu coração. 

É exatamente aí que a fé faz toda a diferença. Sendo ela a certeza das coisas que não se vêem, eu sigo em frente. Pela certeza do que os meus olhos não conseguem ver e pelo que não compreendo, sabendo que é a minha limitação que não me permite imaginar algo maior do que a presença da minha filha. 

MAS EU VOU CRER NO INCOMPREENSÍVEL!!!



sexta-feira, 27 de junho de 2014

E minha eternidade durou apenas alguns segundos

Durante este período, passei por uma grande frustração e por várias outras pequenas frustrações. A maior delas foi perder a minha filha, como todos vocês já sabem. As pequenas foram várias: não ter amamentado, enquanto meu peito jorrava leite; passar VÁRIOS dias sem poder tocar ou falar com minha filha (por conta da hipertensão pulmonar, quanto mais agitada ela estivesse pior ficada seu quadro); ter alta da maternidade e ir embora sozinha e muitas outras.

Mas a "pequena" frustração que mais me marcou foi o fato de não ter podido carregá-la no colo depois do dia do seu nascimento. Não é incomum eu reviver esta frustração e sentir uma tristeza profunda. Mas foi pensando sobre isso que Deus me mostrou seu cuidado com todas as coisas. 

Sempre quis ter parto natural. Minha bolsa rompeu, mas eu não entrei em trabalho de parto. Antes, quando eu pensava em indução do parto, sempre me dava um frio na espinha. Eu achava que não ia dar conta do "tranco". Mas no dia que aconteceu, não tive muito tempo para raciocinar. Meu obstetra entrou no quarto e falou: " A ordem das coisas se inverteu um pouco. Sua bolsa rompeu e você não está tendo contrações. Vamos precisar induzir o parto!". Eu prontamente respondi: "Ok!"

Mal sabia eu que aquela decisão me permitiria viver um momento único, momento que eu teria sido privada caso tivesse optado pela cesárea. 

Acredito que vocês saibam que quando o bebê nasce de parto natural, imediatamente o obstetra o entrega para a mãe. E eu consigo me lembrar claramente deste momento. Minha princesa nasceu e imediatamente o obstetra a colocou em cima da minha barriga. Ela abriu os olhinhos e olhou nos meus. Jamais conseguirei esquecer este momento. Como um amigo me disse: "Nossa eternidade dura apenas um dia!" A minha durou apenas alguns segundos, talvez um minuto. Os segundos ou minuto mais preciosos da minha vida.

Obrigada, Pai, pela oportunidade de carregar a minha filha mesmo que por poucos segundos, talvez um minuto, e me fazer acreditar que tudo valeu a pena! 



Minha eternidade!
                           

quarta-feira, 25 de junho de 2014

E eu apenas existo...

Hoje é um daqueles dias para se apagar. Não, não aconteceu nenhuma outra tragédia. Mas sabe quando termina o dia e você sente que ele não valeu de muita coisa? Pouco aprendizado, poucos sorrisos, nenhuma gargalhada. Seu trabalho não rende. Você não consegue fazer diferença na vida do outro, seja com um sorriso, um abraço ou uma palavra de conforto. Sei lá, acho este sentimento de inutilidade e mau aproveitamento do tempo ruim. É como se eu estivesse somente existindo e não vivendo de fato. Na verdade, parece que em vários dos meus dias este sentimento de somente existir tem permeado meus pensamentos. Sabe quando você vive esperando que os dias passassem logo para que você se sinta melhor?! Esperando ansiosamente que a dor melhore e seja pura e simplesmente transformada em saudade?! Meus dias tem sido assim, no meio de uma tristeza sem fim, brotam alguns sorrisos e algumas gargalhadas sinceras, que servem como anestésico para a dor. E eu apenas existo, aguardando os dias de viver! E eu apenas existo, aguardando as manhãs de alegria prometidas após as noites de choro.  

E as lágrimas insistem em cair e o coração se mantém apertado. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Não, eu não sou forte

Acho que a frase que eu mais tenho ouvido ultimamente é: "Você é forte. Você vai conseguir passar por isso!". Nunca odiei tanto ouvir esta frase, porque, automaticamente, o meu pensamento era: "Nossa, como eu desejo ser fraca. Certamente as pessoas fracas tem o direito de criar os seus filhos. Como eu sou forte, este direito me foi usurpado!".

Inevitavelmente depois de ouvir tantas vezes a mesma coisa, resolvi parar para refletir. Será que eu sou mesmo forte? Ou as circunstâncias me fizeram forte? O que veio primeiro? Eu cheguei a seguinte conclusão: a circunstância vem primeiro! (me dê o direito de discordar de você, caso você acredite o contrário!). Posso falar sobre isso com um certa propriedade. 

Vamos a duas fortes situações que passei na vida que me permitiram chegar a essa conclusão. A primeira aconteceu há exatos 10 anos. Eu, na época com 17 anos, tinha acabado de passar no vestibular e tinha ido no mês de fevereiro passar as férias no RJ, onde os meus avós moravam. Infelizmente, aquelas não foram as melhores circunstâncias para um período de férias, porque a minha avó estava gravemente doente e internada no CTI. A idéia inicial era passar o mês de fevereiro e retornar para Salvador, mas como eu só tinha passado no vestibular para começar o curso no segundo semestre do ano, meu irmão sugeriu que eu ficasse no RJ enquanto minha avó estivesse no hospital para ajudar. E assim aconteceu. O que eu não imaginava era que esta estadia duraria 6 meses. Sim, eu passei 6 meses morando em uma cidade que não era a minha, longe dos meus pais, dos meus irmãos e dos meus amigos, me revezando diariamente com o meu avô para que um de nós estivesse no hospital para dormir com minha avó. Sim, ai você pensou: "Nossa, como ela é forte! Tão nova e conseguiu enfrentar uma situação tão difícil!". Não, eu não sou forte. As circunstâncias me fizeram forte. Primeiro eu fui exposta a uma situação e precisei enfrentá-la, para dai então ser considerada forte. A forma como eu encaro as circunstâncias é que me fazem forte. Eu poderia ter simplesmente desistido, ligado para casa e pedido a meus pais que comprassem a minha passagem de volta. Prontamente entraria no avião e retornaria para a minha realidade! Enfrentar a situação foi o que me fez forte. 

A segunda situação é a que estou vivendo agora com a partida da princesa Catarina. Ninguém, absolutamente ninguém está "preparada" ou tem força para enfrentar a perda de um filho. Você não se faz forte para enfrentar a perda de um filho. A perda do filho é que te faz forte. A circunstância me foi imposta e, desta vez, eu não tive a opção de pegar um avião e "fugir" para a minha zona de conforto. Eu fui obrigada a enfrentar a situação. E a forma como eu a encaro é que me faz forte. E hoje eu posso dizer: "Não, eu não sou forte. Eu estou forte, porque as circunstâncias me fizeram assim!". A sua forma de encarar os problemas é que determina a sua força. Porque a Bíblia diz:" E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo." 2Cor 12:9. Na sua fraqueza e não na sua força é que se aperfeiçoa o poder de Cristo sobre a sua vida. Não, eu não sou forte. O poder de Deus se aperfeiçoa na minha vida e tem me permitido seguir em frente. As circunstâncias me fizeram forte. O poder de Deus, aperfeiçoado na minha fraqueza, me fez forte. 






quinta-feira, 19 de junho de 2014

A dor do retorno

Cá estou eu de plantão. A auxiliar de enfermagem me chama para fazer uma ultrassonografia. Como eu estava ocupada em um outro laudo, ela sentou ao meu lado e comentou: "Dra, fiquei com pena da mãe do menininho que a senhora vai fazer o exame agora. Ela disse que está sendo muito difícil retornar para este hospital. Na hora imaginei que ela tivesse perdido algum parente, um pai, uma mãe, não sei. Ai ela disse que perdera seu filho de 9 anos depois de um acidente de carro faziam 4 meses!" Imediatamente, compartilhei da dor desta mãe. Senti vontade de abraça-la, de dizer que eu sentia muito e que sabia exatamente que dor era aquela que ela estava sentindo. Não o fiz. Mas foi inevitável novamente lembrar de tudo que passei. Exatamente 1 mês e 1 dia após me despedir da minha filha, precisei retornar a maternidade. Estava apresentando um sangramento no pós parto tardio e precisei ser submetida a uma curetagem para investigação. Assim como a mãe do meu paciente, eu entendo o quanto é difícil superar e retornar ao palco das nossas maiores dores. Espero que, com o olhar e o cuidado, eu tenha conseguido repartir com ela a dor. As circunstâncias nos fizeram mais fortes e nos resta seguir em frente e desbravar novos palcos, e que estes novos palcos testemunhem de momentos mais alegres.   

quarta-feira, 18 de junho de 2014


"FILHO é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo" 

(José Saramago)



E o tanto que eu agradeço por este empréstimo! S2

Prioridades

Esta conversa sobre as prioridades da nossa vida é extremamente repetitiva, mas, volta e meia, pego alguém se aconselhando sobre que decisão tomar. Para se tomar uma decisão, por mais difícil que ela pareça, o primeiro passo é definir as suas prioridades. Não faz sentido algum você se mudar da sua cidade, por conta de um novo emprego, se a sua prioridade for a sua família e não o seu emprego. Você não vai trocar o seu emprego por uma viagem, caso a sua prioridade seja o seu emprego. E por aí vai. Poderia citar mil exemplos diferentes e possivelmente você iria se identificar com algum deles. 

Hoje eu comecei a pensar em prioridades, após lembrar de uma dia quando estava conversando com minhas amigas (quer dizer, conversando não, gritando, todas juntas ao mesmo tempo, pouco se importando sobre quem estava ouvindo o que!) e uma delas, no meio deste confusão, me perguntou: "Amiga, você não tem vontade de ter a sua própria casa?" e eu prontamente respondi: "CLARO que tenho! Eu amo coisas de casa, adoro decoração. Amaria ter um apartamento meu!" (Sim, eu moro de aluguel!). E continuei falando: "Só que a minha prioridade não é esta! Eu só vou ter o meu apartamento no momento em que eu puder pagá-lo, sem sacrificar todas as coisas que são mais importantes para mim. Minha prioridade é estar com a minha família, com meu marido, com meus filhos. Se for preciso, eu moro de aluguel a vida toda, mas não abro mão do que para mim é o mais precioso". 

Eu gosto do meu trabalho, o faço com prazer, mas ele não é, nunca foi e nunca será a MINHA prioridade. Acho que o trabalho é super importante, é ele que paga as minhas contas e me traz também realização. Se esta for a sua prioridade, siga em frente, o importante é você colocar "a sua prioridade em primeiro lugar". Não importa qual seja ou quais sejam elas. Nós podemos ter prioridades completamente diferentes, mas seremos muito mais felizes quando conseguirmos estabelecer as nossas e esforçarmos-nos ao máximo para respeitá-las.

Eu aprendi isso há algum tempo atrás e, como achei bastante pertinente, resolvi compartilhar com vocês. As minhas prioridades são: Deus (não estou falando sobre frequentar igrejas ou cerimônias as mais diversas, estou falando de intimidade com Deus), família e trabalho. E assim tenho vivido! Me apegando com Deus porque sem Ele nenhuma das outras coisas faz sentido. Cuidando e dando o meu melhor pela minha família. Fazendo o meu trabalho da forma mais responsável que posso. 

E assim vou vivendo feliz! Quem sabe um dia eu tenha um apartamento, lindamente decorado, e lhe chame para tomar um café comigo?! 

E você? Quais são as suas prioridades?